sexta-feira, agosto 15, 2008
sábado, março 31, 2007
Fichas de Avaliação Integradas - Questões de Desenvolvimento & Questões Electrónicas
Barata, L.(1)
1. Introdução
As fichas de avaliação são instrumentos que poucos professores dispensam, são praticamente inevitáveis. Reflectindo um pouco sobre a sua utilização, podemos colocar algumas questões: Há quantos anos se utilizam as fichas de avaliação? Como transformar uma ficha de avaliação numa ficha formativa? O que aprendem os alunos durante as fichas de avaliação? Como evoluíram as fichas de avaliação? Que competências avaliam as fichas de avaliação?
Partindo desta desconcertante insatisfação, podemos procurar novas formas avaliar e de dar feedback ao trabalho do aluno. Para além disso, estamos numa era em que o tempo do professor, mais que nunca, tem que ser bem rentabilizado para conseguir pesquisar, actualizar-se, planificar, criar documentos, participar nas actividades, sem deixar de cumprir o cada vez mais alargado horário a passar na escola.
É neste panorama que as fichas de avaliação auto-corrigíveis podem surgir como uma alternativa. Note-se que não é uma ideia de todo pioneira, por exemplo o exame de código da estrada já há muito tempo é realizado nestes moldes ou, por exemplo, nalgumas universidades, já se utilizam testes de escolha múltipla realizados de forma mais frequente para avaliar os alunos como complemento dos exames finais.
O objectivo deste artigo é apresentar uma modalidade de ficha de avaliação realizada no computador compatível com a utilização real nas escolas portuguesas, explorar as vantagens e desvantagens deste método de avaliação, desmistificando algumas ideias que a poderiam inviabilizar à partida.
2. Fichas de avaliação integradas: uma proposta diferente
Quando se fala em fichas de avaliação auto-corrigíveis, a maioria das pessoas pensa nos “testes americanos” ou nas “questões de cruzes”, mas uma ficha de avaliação realizada com o auxílio do computador pode ser muito mais que isso.
O primeiro aspecto a considerar é que estas fichas podem ter uma grande diversidade de exercícios, desde a correspondência ou associação de frases/termos, as questões de verdadeiro e falso, as legendas de figuras, bem como as mais conhecidas questões de escolha única ou escolha múltipla.
A segunda particularidade a considerar é o facto desta proposta de ficha de avaliação integrada englobar um 2 em 1: a ficha de avaliação integrada consta de uma parte que é realizada no computador, em que o aluno obtém imediatamente a avaliação das suas respostas, e uma parte com uma ou mais questões de desenvolvimento, onde se testa o que o aluno sabe de uma forma mais sistemática, obrigando-o a organizar as suas ideias por escrito, utilizando competências na área da utilização da língua portuguesa (Ver Anexos).
Uma ficha de avaliação realizada nestes moldes tem algumas particularidades, a saber:
1) Qualquer ficha de avaliação possui um conjunto de questões de resposta mais ou menos directa, que não exigem ao aluno grande capacidade de expressão oral, pelo que a realização da ficha auto corrigível facilita a correcção deste grupo de questões sem desvirtuar o seu objectivo inicial;
2) Se o professor liberta algum tempo de correcção, pode utilizá-lo na parte de questões de desenvolvimento, criando questões mais exigentes, trabalhando desta forma competências de expressão escrita, organização de ideias e criatividade do aluno;
3) A principal barreira à realização de testes no computador a valer na avaliação é a falta de computadores, mas, utilizando uma avaliação integrada com duas partes, na mesma mesa pode estar um aluno a fazer a parte escrita e outro colega a fazer o teste electrónico, trocando posteriormente.
3. Qual a melhor ferramenta para produzir uma ficha de avaliação electrónica?
Existem diversos programas para produzir fichas de avaliação electrónicas, a maioria de distribuição gratuita. A ferramenta Hot Potatos é das mais conhecidas pela sua versatilidade, embora limite um pouco a composição de testes com diferentes tipos de questões. Outra ferramenta interessante é o QuizFaber que, para além da simplicidade de utilização, permite uma composição com diferentes tipos de questões muito fácil.
O professor tem que ser cada vez mais professor-investigador e, se pesquisar, de certeza que vai encontrar muitas outras ferramentas e aplicações com estas funções. Por exemplo, nos sistemas operativos linux, mais vocacionados para a educação, surge software incluído no instalação inicial para produzir questões.
Todas estas ferramentas são muito interessantes, mas apresentam à partida uma barreira de utilização para muitos professores: 1) é necessário perceber um pouco de FTP e redes para publicar estes testes na Internet; 2) os resultados para serem armazenados necessitam de configurações no servidor; 3) as comunidades de partilha de recursos estão distantes geograficamente e não falam português.
A vulgarização da plataforma moodle em Portugal poderá responder a estas dificuldades. A utilização da actividade mini-teste permite a criação de fichas de avaliação com diferentes tipos de questões com a grande vantagem de ser tudo feito online, pelo que a ficha de avaliação fica automaticamente publicada na Internet (em data e hora definidas pelo professor com acesso livre ou restringido) e os resultados são automaticamente guardados (para além da avaliação é guardada a hora de início e fim e as respostas em cada resolução para consulta posterior).
4. Prós e contras da avaliação electrónica (utilizando o moodle)
O quadro I procura resumir algumas das vantagens e desvantagens das fichas de avaliação realizadas no computador utilizando a ferramenta online moodle para criar e aplicar as fichas.
Quadro I -Principais vantagens e desvantagens das fichas de avaliação electrónicas do moodle na perspectiva do professor e do aluno.
5.1 As fichas de avaliação “de cruzes” são mais fáceis
Para avaliar esta afirmação, foram aplicadas fichas de avaliação integradas/mistas a duas turmas, uma de 8º e outra de 9º ano de escolaridade. A ficha possuía uma parte de teste electrónico a valer 70% e uma segunda parte que envolvia uma composição (orientada por termos a utilizar) a valer 30% - questão de desenvolvimento.
Quando se compararam estatisticamente os resultados da ficha de avaliação integrada/mista com a média das notas das três últimas fichas de avaliação, concluiu-se que, no caso do nono ano, os resultados são estatisticamente semelhantes para um intervalo de confiança de 95% (p=0,208). No entanto, no oitavo ano, os resultados na ficha de avaliação integrada/mista foram estatisticamente superiores aos obtidos nas três últimas fichas de avaliação (p=0,012) (ver anexos – Tabela I).
Considerando apenas os resultados obtidos na ficha de avaliação integrada/mista, os resultados na parte realizada no computador são estatisticamente superiores às notas obtidas na questão de desenvolvimento (p<0,02)>
5.2 As escolas não possuem computadores suficientes/ não há condições para aplicar testes nos computadores
A verdade é que este já não é um factor limitante se considerarmos a modalidade proposta. Se a ficha de avaliação for integrada (mista), na mesma mesa pode estar um aluno a resolver as questões de desenvolvimento e outro aluno a realizar a ficha de avaliação electrónica num computador, tendo o professor o cuidado de recolher a folha de respostas e colocando-os numa orientação que dificulte a visualização mútua.
Todas as escolas possuem salas TIC devidamente instaladas que devem ser utilizadas por todos os alunos e não só para na disciplina TIC de 9º ano. Estas salas tinham uma dimensão mínima, pelo que são sempre salas de tamanho razoável. Caso seja possível, esta é a opção mais simples em termos logísticos.
Se a sala for demasiado pequena, há sempre a opção dos computadores portáteis que a maioria das escolas receberam. São 14 computadores o que permite a realização do teste com turmas até 28 alunos. Esta opção obriga a dois cuidados: 1) é necessário algum tempo para montar e ligar todos os portáteis, bem como depois desligar e arrumar; 2) a sala tem que ter boas condições de acesso à Internet.
Mesmo que estas duas soluções pareçam demasiado complexas, há sempre a alternativa de desdobrar a turma, pedindo ao coordenador TIC, ao coordenador do projecto CRIE ou aos professores que se encontram disponíveis para substituição para acompanharem uma das metades da turma na sala TIC ou na sala de aula durante a realização da ficha de avaliação.
5.3 Este tipo de ficha de avaliação dá mais trabalho ao professor
Este aspecto é sempre discutível, por isso, vamos estabelecer um paralelismo, comparando a aplicação desta tecnologia com os acetatos.
Quando surgiram os acetatos foi necessário investir em retroprojectores, o professor teve que dispender tempo a prepará-los, tinha que requisitar o projector,etc… Mas, apesar deste dispêndio de energia, o balanço foi positivo:
1) maior qualidade - o professor conseguia abordar mais conteúdos numa aula e os alunos podiam até ver imagens sem serem desenhadas no quadro;
2) reutilização - os acetatos podiam ser reutilizados em anos seguintes (o quadro e giz apagam-se, o acetato não…);
3) massificação - mais tarde, esta tecnologia vulgarizou-se e as próprias editoras passaram a fornecer acetatos pré-feitos.
É obvio que o professor terá de dispender algum tempo até conseguir “brincar” com estas ferramentas para criar testes auto corrigíveis mas, tal como aconteceu com os acetatos, o balanço também será positivo, senão vejamos:
1) maior qualidade - as fichas auto corrigíveis podem ter imagens a cores, podem ser realizadas com maior frequência (avaliação mais frequente é mais formativa) e podem englobar um volume maior de conhecimentos (e até competências normalmente pouco testadas- por exemplo a pesquisa de informação na internet);
2) reutilização - depois de o professor criar um banco de dados de questões, pode facilmente fazer vários testes diferentes ou até partilhar questões com outros professores (neste campo pode até definir-se um acesso limitado às questões, em que o aluno/encarregado de educação visualiza o teste respondido sem poder imprimir, nem copiar as questões);
3) massificação - quanto mais se vulgarizar a tecnologia, mais fácil será aplicar nas escolas as fichas de avaliação electrónicas e mais recursos pré-feitos haverá disponíveis (note-se o fenómeno de massificação da utilização da plataforma moodle no nosso país).
5.4 Os alunos copiam facilmente
Tal como num teste normal, há sempre a possibilidade dos resultados serem viciados. O facto dos alunos possuírem o monitor à sua frente pode facilitar a troca de palavras entre alunos ou a consulta das designadas “cábulas”.
A verdade é que, em termos do teste no computador, a ordem dos itens de resposta é baralhada aleatoriamente cada vez que o teste é descarregado, pelo que dificulta a cópia, sobretudo se as diferentes opções tiverem extensão semelhante e se houver uma distância mínima entre os alunos e entre os monitores dos computadores.
Um factor muito importante a considerar neste aspecto é a extensão da ficha de avaliação(por exemplo o mesmo teste de 17 questões foi respondido em oito minutos por alguns alunos e em trinta minutos por outros). Apesar de depender muito dos alunos, se a ficha for demasiado curta, pode suscitar mais problemas após a sua realização.
5.5 Alguns alunos resolvem o teste demasiado rápido e não respondem com atenção
Este é um fenómeno que se verifica, sobretudo, em alunos mais novos e nas primeiras fichas realizadas desta forma. Muitos alunos ficam ansiosos com o facto da ficha ser realizada no computador e respondem demasiado rápido. Este “problema” pode ser resolvido de várias formas.
A situação ideal seria os alunos fazerem uma ficha de revisões formalmente semelhante à ficha de avaliação para se ambientarem ao sistema (por exemplo, no mesmo período, para a primeira ficha de avaliação, utilizar a ficha no computador como revisões e, na segunda ficha do período, aplicar uma avaliação integrada/mista).
Outra hipótese de solução, embora mais polémica, é permitir ao aluno realizar duas tentativas de resposta à ficha de avaliação. Neste caso, por uma questão de justiça, deve-se ter o cuidado de “esconder” a avaliação final (pois se o aluno recebe o feedback das questões que errou, facilmente as corrige). Também se deve escolher como método de avaliação a média das tentativas de resolver a ficha, tornando o resultado mais equitativo e comparável.
5.5 Os alunos podem ter acesso à ficha de avaliação com antecedência
Há vários mecanismos que impedem o acesso à ficha de avaliação antes do professor dar ordem. Por exemplo pode definir-se uma palavra-passe, impedindo qualquer aluno de iniciar ou ver o teste. Para além disso, a ficha pode estar configurada para “abrir” apenas a determinada hora e dia.
No que diz respeito ao acesso à prova, o aluno, no final da mesma ou em qualquer altura, pode visualizá-la. Mas o professor pode definir que o aluno consulte e reveja apenas durante algum tempo, ficando a ficha de avaliação indisponível posteriormente, permitindo a sua reutilização em anos seguintes (a realização de testes em janela segura impede a sua impressão).
6. Notas finais
Penso que este é um pequeno contributo para encarar as fichas de avaliação electrónicas como uma alternativa viável às fichas de avaliação apenas escritas nas escolas portuguesas. Apesar de todas as condicionantes técnicas de aplicação e o tempo que será necessário despender para aderir a esta tecnologia, as vantagens superam as desvantagens, sobretudo quando pensamos no valor formativo e na capacidade de testar um maior volume de conhecimentos/capacidades, “poupando” uma aula de correcção.
Finalmente, fica a ideia que é preciso desmistificar a utilização de fichas electrónicas, aceitando-as de uma forma séria, começando, desde já, a incluí-las na nossa prática docente.
A proposta de utilização de um modelo integrado ou misto de ficha de avaliação visa resolver a falta de recursos, mas também contribui para a equidade e combate à possível tendência inflacionista das avaliações somente electrónicas.
Em termos de investigação, ficam abertas muitas questões: Como incluir as fichas de avaliação integradas/mistas nos critérios de avaliação? Qual o melhor modelo de integração destas fichas de avaliação com a planificação anual? Podem substituir-se totalmente as fichas de avaliação escritas? É possível utilizá-las em todas as disciplinas?
7. Bibliografia
Case, S. & Swanson, D (1996). Constructing Written Test Questions For the Basic and Clinical Sciences Philadelphia: National Board of Medical Examiners 181 pp.
7.1 Webgrafia:
Manual de instruções do Moodle (acedido em Março de 2007) www.moodle.org.
terça-feira, julho 12, 2005
Avaliação do Desempenho
(proposta de reflexão)
Barata, L. Jesus, S. Damiana
"Não há ventos favoráveis para aqueles que não sabem para onde vão." (Seneca)
1. Introdução
Muitas vezes questionamo-nos como deveria ser a escola e qual o papel do professor nessa escola. Todos concordamos que o passado, presente e futuro da escola são diferentes. O passado não se repete, e dele apenas interessam as aprendizagens que produziu em nós; quanto ao presente, a cada momento que passa, torna-se passado a um ritmo cada vez mais alucinante, sendo assim, resta-nos a preocupação com o futuro e com aquilo que poderá ter de melhor, nomeadamente no nosso Sistema Educativo.
Quando se refere Sistema Educativo, não é aquele que carrega aos ombros a culpa de muitos insucessos na Escola, porque a verdade é que um Sistema é sempre constituído por várias partes e só se cada parte mudar é que o Sistema melhora.
É sabido que a Escola terá que se tornar num local de aprendizagem, trabalho, participação, descoberta intelectual, pesquisa, comunicação, avaliação, ou seja mais activa na perspectiva do aluno; para além disso a escola tem que construir resposta escolares socialmente credíveis, com novos instrumentos curriculares, metodológicos, organizacionais e pedagógicos onde não se ensine apenas, mas se forneça uma orientação profissional, para a cidadania, para a responsabilidade e sentido crítico (Azevedo, 1999: 175-182).
Neste contexto, todos compreendemos que devem ocorrer alterações nos padrões e práticas pedagógicas adoptadas pelo professor que não pode ser um mero preparador dos alunos para responder a perguntas e exames escolares, mas sim enveredar por um novo caminho assente em novas competências que apenas se obtém através de uma Avaliação de Desempenho.
2. Como pode a Avaliação do Desempenho melhorar os profissionais do ensino?
A nossa sociedade canaliza uma boa parte dos seus recursos para promover um Sistema Educativo, do qual os professores, principais profissionais do ensino, desempenham o seu papel para promover uma melhoria dessa mesma sociedade. O grande objectivo da avaliação do desempenho é o desenvolvimento de professores com o perfil que a sociedade necessita: o novo perfil do professor.
Esta nova visão implica que os professores não continuem à espera de orientações vindas de entidades superiores, mas sim procurem a sua própria orientação e desenvolvimento, adquirindo autonomamente novas competências profissionais e refinando as que já possuem, tornando o Sistema Educativo mais fiável, consciente e intencional, restituindo à profissão o valor social que merece.
2.1 Em busca do novo perfil do Professor
Este novo perfil do professor deve denotar à partida de três características de alicerce: 1) a dinâmica do trabalho por projecto (que envolve a interacção e dualidade intenção e programação) assente na planificação, monitorização e avaliação de tudo aquilo que o professor realiza; 2) a dimensão humana e social, promotora da qualidade das interacções sociais na escola e 3) a promoção da formação e desenvolvimento profissionais. Estes pilares sustentarão o desenvolvimento de professores autónomos, empreendedores e criativos, conduzindo a melhores práticas pedagógicas que contribuem para uma melhoria da qualidade do Sistema Educativo (fig. 1).
2.2 Dimensões da Avaliação do Desempenho
De acordo com o perfil do professor, podem-se derivar algumas dimensões/indicadores que podem conduzir o professor ao longo do seu processo de avaliação e valorização profissional. Perante este cenário, a Avaliação do Desempenho deve criar instrumentos que permitam: 1) a monitorização e melhoria em cada profissional de ensino das três características alicerce (dinâmica de projecto e as dimensões humana e evolução profissional); 2) a promoção da autonomia, empreendedorismo e evolução pedagógicos, nomeadamente através da auto-regulação; 3) a melhoria da Escola e do Sistema Educativo, através da valorização e ponderação da participação nas diferentes estruturas da Escola e em projectos educativos e, finalmente 4) a melhoria das práticas pedagógicas, recorrendo à supervisão ou colaboração pedagógicas (fig. 1).
Fig. 1 - Identificação de algumas características chave do novo perfil do professor e possíveis contributos da Avaliação do Desempenho para a evolução profissional dos professores.
3. Uma proposta de Avaliação do Desempenho
A Avaliação do Desempenho é muitas vezes vista como um processo externo, com um sentido controlador e fiscalizador, o que não corresponde à proposta aqui apresentada. Por outro lado, um dos grandes medos dos professores é que a avaliação assente nos resultados finais dos alunos, embora este indicador não deva ser totalmente desprezado, bem como a opinião dos alunos, a verdade é que uma Avaliação do Desempenho tem que assentar na avaliação processual, começando na planificação e não numa avaliação apenas do produto.
A proposta que se apresenta assenta também no princípio que o trabalho desenvolvido ao nível da avaliação de professores estagiários possa continuar a ser desenvolvido e potenciado ao longo da carreira profissional, de forma a desenvolver melhores professores.
Esta avaliação deve ser entendida como uma oportunidade para os professores tomarem consciência das suas concepções pedagógicas, metodológicas e sociológicas, de forma a procurarem um aperfeiçoamento da sua acção, num processo partilhado com outros professores, supervisores, alunos ou outros membros da comunidade educativa, inserindo-se num Projecto Educativo de Escola.
Quando fazer a avaliação?
A avaliação dos professores deve ocorrer ao longo de todo o ano, no entanto uma avaliação classificadora deveria apenas ocorrer no final de cada ano lectivo ou de cada ciclo lectivo do professor. O procedimento da avaliação escolar deveria ser dividido em diferentes fases:
a. Pré-Avaliação: na preparação de cada ano ou ciclo lectivo do professor, seria interessante articular as vontades da instituição escola com as vontades de cada um dos seus profissionais, promovendo o conhecimento e assimilação do Projecto Educativo. Essa articulação poderia surgir da mútua declaração de intenções através de planos de desenvolvimento, a saber:
i. Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), declaração de intenções que estabelece objectivos, metas e pretensões para a instituição escola e para os diferentes grupos profissionais da escola, de acordo com o Projecto educativo da Escola. Este documento deverá conduzir a uma melhor definição das acções a desenvolver por cada profissional no seu próprio plano de desenvolvimento pessoal, promovendo a integração do trabalho escolar.
ii. Plano de Desenvolvimento Profissional (PDP), referindo-se à planificação das diferentes vertentes em que o docente vai procurar uma melhoria ao longo do ciclo lectivo: definição de objectivos e indicadores da sua concretização (objectivos profissionais, educacionais, institucionais,…), escolha das áreas de formação que interessam ao seu desenvolvimento pessoal, propostas de actividades/projectos a desenvolver na escola e, sempre que possível, constituição de diferentes grupos de trabalho na comunidade educativa.
b. Monitorização, recolha de evidências e auto-avaliação: da actividade profissional do professor vão decorrendo sempre novos problemas, desafios e caminhos para explorar que gerarão a redefinição de objectivos, proposta de novas actividades, nova formação,… que devem ajudar à reformulação do plano inicial de desenvolvimento profissional e contribuir para a auto-avalição do professor.
Para além disso, é interessante que a evolução do professor seja intencional e reflexiva, pelo que será importante uma recolha de evidências do trabalho de melhoria profissional, num trabalho de constante auto-avaliação, que deverá ocorrer paralelamente e não ser confundida com a compilação e organização de todo o trabalho realizado pelo profissional.
c. Auto-avaliação intermédia ou final: o final do ano ou do ciclo lectivo será altura para uma reflexão e avaliação do trabalho desenvolvido, fazendo um levantamento do trabalho realizado e reflexão sobre o que correu bem e o que poderia ter sido melhor sob a forma de um relatório a juntar à avaliação do PDP e evidências compiladas.
d. Hetero-avaliação e harmonização das avaliações: o processo de auto-avaliação de cada profissional deve ser analisado pelo coordenador de grupo, coordenador de formação da escola ou outra entidade escolar de forma a ser feita uma hetero-avaliação e harmonização de avaliações. De forma a zelar pela harmonização de avaliações seria interessante que o resultado da avaliação de cada professor fosse proposto por um grupo de professores (reunião de grupo, etc…)
e. Divulgação de resultados, reclamação, homologação e recursos: no final de cada ano ou ciclo lectivo seria interessante divulgar as avaliações, PDP’s, relatórios e demais evidências, bem como avaliação final aos diferentes intervenientes de forma a permitir a partilha de informação e avaliação da instituição Escola. A reclamação, homologação e recursos teriam uma lógica pertinente se este sistema de Avaliação de Desempenho contribuísse também para a progressão na carreira docente.
Quais os instrumentos que poderão ser utilizados na Avaliação do Desempenho?
Cada Escola desenvolve e aplica instrumentos de avaliação dos alunos que são reformulados anualmente e adequados aos alunos e profissionais através de grupos e departamentos de docentes. Aliás, a auto-avaliação dos alunos é de carácter obrigatório. Está portanto provado que as Escolas têm estruturas e capacidade para criar documentos próprios de avaliação que poderiam também ser canalizadas para a produção de instrumentos de avaliação da acção do professor. É também sabido que é dada alguma autonomia às escolas, nomeadamente na elaboração do Projecto Educativo, Regulamento Interno, Projecto Curricular de Escola,… pelo que a aplicação de um sistema de Avaliação do Desempenho semelhante ao aqui proposto poderia perfeitamente ter um enquadramento nas Escolas portuguesas, dependendo da motivação dos profissionais.
A implementação de um sistema de avaliação deste género é complexa e exige uma alteração de mentalidade profissional, no entanto, uma vez produzidos os instrumentos iniciais de avaliação, seria mais fácil evoluir e afinar todo o processo de Avaliação de Desempenho, trabalhando para a sua implementação plena.
O primeiro passo, talvez o mais importante, seria conseguir que todos os profissionais da Escola fizessem auto-avaliação do seu desempenho o que faz todo o sentido, uma vez que todos reconhecem as vantagens deste vertente da avaliação para a classificação dos alunos. Assim, a primeira prioridade será a implementação de instrumentos de auto-avaliação (por exemplo através de matrizes de verificação) que devem ser melhorados anualmente, adequando-se às realidades e dificuldades encontradas.
Sem pretensões de levantamento exaustivo, apresentam-se algumas propostas de instrumentos pertinentes na Avaliação do Desempenho:
f. Instrumentos de auto-avaliação - Matriz de verificação de competências profissionais: construída ao nível de escola, contemplando uma visão holística das diferentes vertentes de índole profissional, desde aspectos da postura e desempenho na aula, passando pela atitude perante alunos, colegas e comunidade educativa, bem como autonomia e desenvolvimento profissional e formação.
g. Plano de Desenvolvimento Profissional (PDP): declaração de intenções construída numa fase inicial promovendo a articulação dos interesses e capacidades profissionais dos professores com o Projecto Educativo da Escola. Este instrumento permitiria também avaliar as necessidades e correcta identificação de necessidades de formação pelos profissionais.
h. Recolha de evidências da evolução profissional: a organização e compilação de todos os materiais produzidos pelos professores ao longo de cada período lectivo em dossier é prática comum, no entanto seria interessante acrescentar a esta compilação uma dimensão mais reflexiva e demonstrativa de evolução através da organização de portefólios mostrando apenas as principais evidências de evolução e reflexões de como foram obtidas essas mudanças, traduzindo, desta forma a individualidade e desenvolvimento de competências de cada profissional.
i. Supervisão e colaboração pedagógicas: a partilha e trabalho em grupo pode criar sinergias muito positivas no resultado final da acção profissional dos professores, pelo que deve ser trabalhada a abertura para o desenvolvimento de equipas escolares.
A criação da figura de supervisor pedagógico nas escolas, aproveitando por exemplo profissionais com maior experiência e formação / currículo adequados, poderia ser muito positiva. Professores com experiência em orientação de estágio, que passarão a estar mais disponíveis, pós-graduados e profissionais com bom currículo poderiam, desta forma, contribuir mais para a melhoria profissional dos seus pares orientando a Escola para melhores resultados globais como instituição.
Este trabalho de supervisão poderia assentar numa visão essencialista de supervisão, contribuindo para o reforço de técnicas e práticas pedagógicas mais correctas; ou numa visão experimentalista onde o supervisor propõem alterações e novas práticas pedagógicas, negociando os melhoramentos ou, idealmente, promover uma supervisão mais existencialista, accionando a reflexão e autonomia dos profissionais, facilitando activamente o desenvolvimento profissional (Fig. 2) (Glickman et al., 1998). Qualquer uma das perspectivas de supervisão deve ser entendida não com um carácter punitivo, nem desvalorizadora, mas sim como uma contribuição para a melhoria do desempenho profissional e melhoria dos resultados do ensino (Fig. 2).
Fig. 2 - Esquema interpretativo da visão actual da supervisãoo no ensino (Glickman et al., 1998)
No âmbito do trabalho de acompanhamento do desenvolvimento profissional, seria interessante que grupos de professores partilhassem as suas aulas, com assistências para avaliação e posterior discussão em grupo do trabalho realizado. Por muito boa que seja a capacidade de auto-avaliação profissional, a hetero-avaliação é útil para aferir e completar a avaliação profissional. Para além disso, a "solidão profissional" e a ausência de partilha e cooperação no trabalho leva a um desperdício de recursos humanos e materiais notável que não pode continuar.
Neste sentido uma reorganização do equipamento escolar, no sentido de criar mais espaços de trabalho (por exemplo concebendo secções específicas das BE/CRE’s com meios materiais, recursos educativos, permitindo o trabalho em grupo) seria o primeiro passo a dar de forma a trazer as horas da componente não lectiva do horário do professor para a Escola, de forma a ser aumentar a identificação dos professores com a Escola e com a sua comunidade, melhorando o trabalho de grupo e interacções profissionais.
j. Exames de aferição profissional: verificando o conhecimento da legislação vigente no ensino, competências a desenvolver nas diferentes áreas disciplinares, princípios do sistema educativo e até, com as devidas precauções, atitudes e concepções pedagógicas.
k. Assembleia de Turma: eleição e justificação em acta do(s) professor(es) de cada Conselho de Turma que melhor desempenho tiveram ao nível das qualidades pessoais e profissionais.
4. Notas finais
O presente documento é apenas uma reflexão muito solitária daquilo que poderia ser a avaliação de desempenho, mas pode ser considerado um bom mote para a melhoria nesta área, uma vez que se torna quase inevitável a implementação de um sistema de avaliação do ensino quer ao nível do professor, quer ao nível de todas as instituição que constituem o ensino.
Esta inevitabilidade justifica-se não só pelo facto da avaliação ser já prática comum no estrangeiro, mas também pelo facto de algumas escolas, sobretudo privadas começaram a procurar sistemas de certificação e avaliação de competências externos que permitam a evolução dessas escolas. Para além disso, não pode ser esquecido o desinvestimento nos estágios de formação inicial dos novos professores, que vêm a sua componente lectiva reduzida e os possíveis handicaps que podem surgir nos novos profissionais.
A proposta pretende ser um documento aberto na perspectiva da investigação em ensino não monopolizada pelas instituições académicas superiores, procurando um caminho próprio no desenvolvimento do professor investigador. Os mapas de conceitos e referências numéricas pretendem facilitar os comentários e discussão do documento.
O contributo e interpretação de todos os que o lerem é importante e servirá para o melhorar, se cada um dispensar um pouco do seu tempo na reflexão e enviar o seu comentário para os e-mail´s referidos ou blog obteremos um documento melhorado ("luisbarata@prof2000.pt", "jesus.sofidamiana.gmail.com" ou "projectoescola.blogspot.com").
A todos os que não concordarem com as ideias expostas, as considerem falaciosas ou demasiado pretensiosas, convido-os a manifestar a sua opinião. Àqueles que se revêem no documento e gostariam de mudar as suas práticas educativas, convido-os a acompanhar o seu desenvolvimento.
Finalmente, fica o desejo que a autonomia dos professores não seja motivo de desprestígio sócio-profissional, mas sim sinónimo de responsabilidade e progressão, para uma sociedade melhor, a do futuro.
5. Referências Bibliográficas
Azevedo, J. (1999). Voos de Borboleta- Escola, Trabalho e Profissões. Col. Perspectivas Actuais da Educação. Porto: Edições Asa pp. 23 – 182.
Glickman, C.; gordon, S. & Ron-gordon, J. (1998). Supervision of instruction: a developmental approach. Needham Heights: Allyn & Bacon. 486p.